domingo, 25 de novembro de 2012

C.S. Lewis - O Problema com "X"

   Um dos meus autores preferidos, e um que considero da maior relevância para os tempos atuais, é o irlandês C. S. Lewis, autor das famosas Crónicas de Nárnia. Lewis era grande amigo de outro génio literário, J. R. R. Tolkien, que, diz-se, foi em grande parte responsável pela conversão de Lewis ao cristianismo (e que ele relatou no seu livro Surprised by Joy). O que me fascina em Lewis, e me faz voltar vezes sem conta aos seus escritos, é a sua linguagem quase mágica, que nos esclarece o mais complicado dos assuntos de uma maneira incrivelmente simples.
   Lewis escreveu muitos livros e ensaios. Um conjunto desses ensaios foi compilado por Walter Hooper e editado pela HarperCollins com o nome de God in the Dock (Deus no banco dos réus) que, tanto quanto sei, não está traduzido para português. Hoje trago aqui um desses textos numa tradução livre minha, como uma contribuição para dar a conhecer este admirável autor. Por ser algo longo irei publicar em três partes.


O PROBLEMA COM “X”…
C.S. Lewis

    Suponho que posso assumir que sete em dez pessoas que lêem estas linhas estão com algum tipo de dificuldade em relação a outro ser humano. Seja em casa ou no trabalho, sejam os seus empregadores ou quem é seu empregado, sejam aqueles que partilham a sua casa ou aqueles em cuja casa habita, sejam os seus sogros ou pais ou filhos, a sua esposa ou marido, alguém lhe está a tornar a vida mais difícil do que seria necessário. É de esperar que não mencionemos frequentemente estas dificuldades (especialmente as domésticas) a estranhos. Mas por vezes fazêmo-lo. Um amigo pergunta-nos porque parecemos tão em baixo; e a verdade vem à tona.
    Em tais ocasiões o amigo geralmente diz “mas porque não lhes dizes? Porque não vais ter com a tua mulher (ou marido, ou pai, ou filha, ou chefe, ou senhoria, ou inquilino) e pões tudo para fora? As pessoas geralmente são razoáveis. Só precisas de as fazer ver as coisas da maneira certa. Explica-lhes as coisas de uma forma razoável, calma e amigável.” E nós, mesmo que não o digamos, pensamos para connosco, “ele não conhece “X”. Nós sim. Nós sabemos como é totalmente escusado fazer “X” ver a razão. Ou já o tentámos vezes sem conta – até estarmos enjoados de tanto tentar – ou então nem sequer tentámos porque vimos logo de início que seria tempo perdido. Nós sabemos que se tentarmos “por tudo para fora com “X”” , ou haverá uma “cena” ou “X” olhará para nós em espanto e dirá “não faço a mínima ideia do que estás a falar”; ou então (o que é talvez ainda pior) “X” concordará connosco e irá prometer virar uma página e colocar tudo em pé de novo – e depois, vinte e quatro horas passadas, estará exactamente na mesma como “X” sempre esteve.
     Sabe-se, de facto, que todas as tentativas para conversar com “X” irão encalhar na velha e fatal falha de carácter de “X”.  E vê-se, olhando para trás, como todos os planos feitos encalharam sempre nessa falha fatal – no ciúme incurável de “X”, ou na sua preguiça, ou susceptibilidade, ou confusão mental, ou autoritarismo, ou mau génio, ou instabilidade. Até uma certa idade, ainda se alimentou a ilusão de que algum golpe externo de boa sorte – uma melhoria de saúde, um aumento de salário, o fim da guerra (1) – resolveria o seu problema. Mas agora não. A guerra acabou, e percebe-se que, mesmo que as outras coisas aconteçam, “X” será sempre “X”, e o velho problema irá manter-se. Mesmo que ganhe uma fortuna, o seu marido continuará a ser um fanfarrão, ou a sua mulher resmungona, ou o seu filho ainda se embebedará, ou ainda terá que viver com a sua sogra.
(continua)
(1)    Escrito em 1948, três anos depois do fim da II guerra mundial. Hoje poder-se-ía falar do fim da crise. (N.T.)

1 comentário:

  1. Seja o X ou a Y a igualdade da equação poderá ser sempre diferente. A incógnita da vida e não a sua constante, é que deve ser resolvida e vivida. A procura de resultados, a partir de experimentos, alterando a forma de comunicar, não esquecendo uma análise pessoal, procurar novos resultados e continuar assim enquanto por aqui andamos, sem entrar pelo reino das trevas, lutando pela luz do bem estar,penso ser a história que devemos viver. ;)

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