terça-feira, 5 de novembro de 2024

 


América, em dia de eleições

Não alimento grandes estados de alma em relação aos EUA. É um país grande (enorme) e grandioso, com paisagens exuberantes, e culturas diversas. Muito do que sou foi moldado pela cultura americana: os livros, os filmes, as ideias...
Tem tanto de bom como de mau. É um país.

Estou curioso para ver o desfecho destas eleições, mas tal como muitas pessoas lá e pelo mundo, estou desolado pelo estado de baixeza a que se chegou no combate ao mais alto nível da política. Um país bipolarizado, com cada lado a dizer que vai votar "pelo mal menor" (Prova da má qualidade dos seus candidatos).

Para mim, muito do que está a acontecer tem a ver com uma progressiva radicalização da sociedade, e rutura do tecido social. É o abandono dos valores tradicionais, e a exaltação da individualidade, que está a cavar um fosso cada vez mais fundo entre as pessoas.
Diferenças entre republicanos e democratas sempre as houve. Hoje, as posições acerca da economia, da política externa (em especial com a guerras na Ucrânia e Médio Oriente), da emigração e da família, estão na ordem do dia. A importância destes assuntos variam de pessoa para pessoa. Para alguns, a economia, e a criação de riqueza é o mais importante. Para outros, a emigração é o assunto mais crítico. Para outros ainda, é a guerra, mais precisamente, a posição dos EUA face a elas.

E depois há a família. Sob este título eu incluo as questões de género, a sexualidade, o casamento, o sempre difícil tema do aborto, e a cultura de cancelamento, entre outras. Chamo-lhe a área da família porque todos estes temas têm como principal alvo, ou vítima, a família.
Uma sociedade que pela força da lei, retira um jovem aos seus pais, se eles se opõe à sua vontade de "mudar de sexo", é uma sociedade ferida. Quanto sofrimento é imposto à família... em nome de um suposto direito, que mais não é do que um engodo para enriquecer certa indústria e "medicina".

A sexualidade, há muito que se entregou à mera busca do prazer, desligada do compromisso de fidelidade e fecundidade entre o homem e a mulher. O consentimento mútuo é a única regra, tudo o resto vale.

O casamento foi redefinido, perdendo o seu sentido único e original da união duradoura entre um homem e uma mulher, aberta à geração de nova vida. Ao incluir na definição de casamento a união entre pessoas do mesmo sexo, o sentido original perde-se. Ao contrário do que dizem os seus defensores, a equiparação do "casamento homossexual" ao casamento tradicional, não é indiferente. É um brutal ataque à família.

Já o aborto, foi sempre um tema difícil e doloroso. E será sempre. É o abuso e a liberalização extrema deste procedimento que estão a destruir a sociedade americana. Ignorar ou minimizar o escândalo dos abortos até ao 3º trimestre, e a perversa pílula abortiva, é um erro. Chamam-lhe "direitos reprodutivos", mas na verdade, estão a empurrar as mulheres para um trágico destino. O maior direito das mulheres é o direito a serem mães. Muito há a dizer sobre isto.

Deus inventou o homem e a mulher, um para o outro. Não fomos nós que nos criámos a nós próprios. Deus inventou o sexo, a família, e o casamento. Quando nos pomos a fazer de Deus, dá asneira. Só quando reconhecemos a lei natural conseguimos ser minimamente felizes, apesar das nossas falhas.

Metade da América está zangada com o mundo como ele é, e culpa o passado e a ordem presente por todas as desigualdades e problemas .É o chamado "wokismo" (do inglês woke). Essa distorção da história e da ordem natural das coisas está a impor um pesado fardo a todos, que um dia ficará evidente. Infelizmente, até muitos cristãos se deixam levar nesta onda diabólica, sem se darem conta. Só quando o movimento woke abrandar e se dissipar é que voltará a haver paz social na América, e poderemos debater política como deve ser. Até lá, que Deus tenha piedade de nós.

sábado, 17 de agosto de 2024

A Oposição da Igreja: Escondida à Vista de Todos

por Carrie Gress 
Publicado originalmente em The Catholic Thing 

 O ressentimento é uma coisa poderosa. Os revolucionários marxistas têm-no fomentado no coração dos seguidores há mais de um século. 
Poucos sabem que a inveja e o ressentimento também estão no coração da ideologia feminista. 
Eu já escrevi anteriormente sobre o poder do "Evangelho do Descontentamento." A maioria acredita que o feminismo foi algum tipo de centelha cultural espontânea necessária para reconhecer a humanidade das mulheres, desconhecendo a sua preparação altamente eficaz primeiro por socialistas, depois comunistas e, finalmente, pela Nova Esquerda. Os marxistas viram a facilidade com que poderiam manipular as emoções das mulheres para serem uma força altamente eficaz para a sua revolução comunista. 

Betty Friedan, creditada como a fundadora da segunda onda do feminismo com The Feminine Mystique, não é conhecida pelas suas raízes marxistas. Eu descrevo-as no meu livro, The End of Woman, mas é o seu amigo Daniel Horowitz quem melhor o faz, em Betty Friedan and the Making of  "The Feminine Mystique."

Friedan, como outras feministas antes dela, particularmente Margaret Sanger, era hábil em esconder as suas verdadeiras intenções. Friedan escondeu bem o seu passado radical. Sanger, décadas antes de Friedan, aprendeu com o seu amante, o radical sexual Havelock Ellis, a importância de parecer o mais normal possível. Por exemplo, Ellis aconselhou Sanger a parar de falar sobre o aborto e a apresentar-se como uma mãe devota, ao promover o controlo de natalidade. Enquanto isso, por trás das suas fachadas benignas, ambas as mulheres despertaram o descontentamento em mulheres de todos os lugares, para promover as suas agendas radicais de esquerda.

As mulheres morderam o isco. E não apenas mulheres seculares. Hoje, as mulheres católicas praticam a contraceção e abortam em taxas aproximadamente iguais às do resto da população, apesar da oposição clara da Igreja Católica a ambos.

O que não deve surpreender é que os principais problemas que a Igreja enfrenta hoje estão relacionados com a fertilidade das mulheres: contraceção, aborto, fertilização in vitro e maternidade de substituição, bem como com os problemas mais amplos enfrentados pela família: divórcio, pornografia e até mesmo homossexualidade. A profecia da visionária de Fátima, Irmã Lúcia, de que a batalha final entre a Igreja e Satanás seria sobre a família, soa mais verdadeira hoje do que nunca.

O sucesso de Friedan dentro do catolicismo teve ajuda significativa das mulheres dentro da Igreja por várias razões.

Primeiro, o feminismo tem uma capacidade inerente de silenciar os homens, particularmente aqueles que fazem parte de um patriarcado. Poucos sacerdotes ou bispos querem pronunciar-se sobre o papel das mulheres hoje, quando sabem que serão rapidamente acusados de quererem mulheres como donas de casa e casadas com maridos dominadores. A esquerda tem sido altamente eficaz na elaboração de uma imagem daqueles que se opõem ao feminismo, e poucos estão prontos para a batalha contra essa caricatura. À luz desta posição aparentemente indefesa, as mulheres que adotaram os princípios feministas tornaram-se confiantes na promoção da sua visão feminista por causa da certeza de que os homens - clérigos, maridos, pais, colegas - não vão reagir.

Segundo, há muito tempo que existe um esforço popular para misturar o catolicismo com o feminismo. A sua força vital é a menção solitária feita pelo Papa João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor sobre "um novo feminismo", auxiliado pela crença geral de que o feminismo é simplesmente um movimento para ajudar as mulheres. A maioria não sabe que as suas raízes filosóficas são decididamente anticatólicas. Qualquer um que tenha lido a Bíblia anti-cristã da mulher de Elizabeth Cady Stanton, o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir ou a Política Sexual de Kate Millett teria dificuldade em dizer que esses textos feministas fundamentais têm algo em comum com A Dignidade da Mulher do papa polaco.

O apelo amplo do feminismo criou um exército daqueles dispostos a lutar por ele em todos os lugares, mesmo nas nossas igrejas. Enquanto o Evangelho do Descontentamento e o Evangelho de Cristo se degladiam, as mulheres exercem a vantagem social. O seu desejo motivado por ressentimento de reivindicar vitimação, e portanto uma dispensa especial não-declarada das exigências da vida familiar, criou uma espécie de bola de neve marxista interna. Os marxistas já não têm que lutar contra a Igreja do exterior; eles se mudaram-se para os bancos da Igreja.

As legiões feministas de mini-Friedentes em todo o Ocidente silenciam o patriarcado através de ameaças de ataques nas redes sociais, cartas ao bispo ou cancelamento de donativos. Poucos sacerdotes - e que poderá culpá-los - têm o estômago para lutar tais batalhas. O resultado é uma ausência quase universal de homilias sobre questões quentes relacionadas à fertilidade feminina. Deus abençoe os sacerdotes que ainda têm a coragem de discuti-los do púlpito, mesmo que seja de forma casual, como listando-os entre as coisas que devem ser confessadas.

O ponto crítico é que o ataque esquerdista à Igreja não vem de fora. É realizado diariamente em quase todas as igrejas e escolas católicas por mulheres nos bancos e nas escolas, embora sem querer. O ideal marxista de mulheres priorizando a carreira sobre a família venceu. Friedan e Sanger venceram. As mulheres têm vindo a acreditar verdadeiramente que viver a sua melhor vida significa usar o controlo de natalidade e o aborto para abrir caminho para oportunidades de carreira.

Os efeitos sociais são de tirar o fôlego: 3.000 crianças abortadas todos os dias, milhões de embriões congelados no limbo do laboratório e a maternidade de substituição não regulamentada - tanto que homens solteiros na China estão a "comprar" bebés na Califórnia com acesso à dupla cidadania. Enquanto isso, a maioria dos países ocidentais está a enfrentar uma escassez de nascimentos insolúvel com nados vivos muito abaixo dos níveis de reposição. A maior causa mundial de morte - mais do que o cancro, doenças cardíacas e COVID - é o aborto. Enquanto isso, a família está a ser dizimada por casais que não entendem o que significa ser casado ou o sacrifício envolvido em criar filhos.

Ironicamente, a Igreja, com milénios de sabedoria, tem respostas belas e convincentes para essas questões críticas da fertilidade e da família. A Igreja, através dos sacramentos, também tem a capacidade de ajudar as mulheres a curar o ressentimento, inveja e raiva.

Temos uma escolha: podemos continuar a abraçar Marx, Sanger e Friedan, ou podemos permitir que a verdade seja anunciada. Apenas uma delas nos dará o que verdadeiramente desejamos e permitirá que os homens e as mulheres se tornem nas criaturas para que Deus os criou.

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Elizabeth Fox-Genovese The trouble with feminism

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sábado, 8 de setembro de 2018

Eu escolho acreditar

Muitas vezes me pergunto "porque acreditas tu em Deus? Não seria muito mais simples deixar de acreditar num Deus invisível, num Deus que parece injusto?"
De facto, acreditar em Deus, no Deus dos cristãos, não é uma posição confortável para lidar com as angústias da vida. Deus não é um anti-depressivo ou um ansiolítico, nem tão-pouco uma droga para fugirmos à "dura realidade da vida".
Nos últimos anos tenho lido muitos livros e ouvido inúmeras palestras. Conheço quase todos os argumentos a favor da existência de Deus e contra a sua existência. E constatei que para cada argumento há sempre um contra-argumento, e que se pode explorar ad nauseum qualquer tema sem chegarmos a uma conclusão definitiva. A argumentação é importante, porque somos seres dotados de razão, e é pela lógica e raciocínio que construímos o nosso saber e também as nossas crenças. Se eu acredito que hoje irá chover, não é apenas porque tenho um pressentimento mas porque vi o boletim meteorológico e sei que as previsões são baseadas em estudos científicos e modelos matemáticos. Também na teologia, a argumentação é baseada em lógica e dedução... é a ciência de Deus. Adoro uma boa discussão teológica, mas não espero dela uma mudança de crença imediata de nenhuma das partes. Noto, contudo, que na maior parte dos casos, os argumentos contra a existência de Deus são pouco consistentes, muitos deles baseados em lugares-comuns ou em ideias adquiridas mas nunca realmente questionadas. Vou dar um exemplo. O sr. F. dizia-me que para ele, Jesus Cristo foi um grande pensador, um mestre da moral, mas que não lhe viessem com essa história de milagres, e de ressureição. Isso já eram elaboradas construções dos seus seguidores.
Pois bem, o Sr. F, não sabe o que está a dizer, e certamente nunca leu os evangelhos, porque se o fizesse, rapidamente chegaria à conclusão de que Jesus era um lunático destinado ao manicómio. Pois que outra classificação se pode dar a um ser que se aproxima de mim e me diz "vai, os teus pecados estão perdoados". Ou "quem me vê a mim vê o Pai"... das duas uma: ou ele tem um grave problema mental ou então sou eu que tenho um grande, muito grande problema.
É que vejamos, se Jesus é quem Ele disse que é, Deus feito homem, tremendas consequências advêm para mim e para a humanidade:
-  Deus existe mesmo. Ali está Ele, em carne e osso, entre os seus conterrâneos da Palestina, há cerca de 2 mil anos, afirmando claramente quem Ele era e ao que vinha.
- Toda a história do povo hebreu, desde Abraão, culmina da vinda de Jesus. A sua morte e ressurreição esclarecem o percurso cheio de dramas feito por este povo.
 - Perante Jesus sou confrontado com a minha natureza humana. Jesus diz-me que sou um ser único, criado com amor por Deus e destinado a amá-lo, mas que carrego o peso do pecado. Preciso de acabar com o pecado na minha vida. Isso requer uma espécie de arrependimento. Um assumir de culpas, que não é a nossa especialidade.
É aqui que as coisas se começam a complicar. Quando estamos a falar de bons princípios (por exemplo, a famosa regra de ouro - faz aos outros como gostas que façam a ti) estamos todos de acordo. São os tais ensinamentos morais de Jesus que ninguém ousa negar. Mas quando toca a mim, esbarro na minha armadura a que muitos chamam amor próprio, ou orgulho. É uma tragédia do nosso tempo que sejamos levados a acreditar em nós próprios e a levar por diante os nossos mais profundos desígnios. Pois esse é um caminho desastroso. O que há dentro de mim é um novelo de pensamentos, de propensões e de vontades que não poucas vezes são altamente reprováveis. Se eu der principalmente ouvidos à minha "voz interior" estou a criar um inferno para mim e para os outros.
Para que a minha consciência possa ter alguma credibilidade, eu tenho, em primeiro lugar, que mudar o seu ocupante. Gostamos de pensar em Jesus como um mestre, um sábio que está ali num canto (um canto importante, por certo) da nossa mente a avisar-nos do que  fazemos bem ou mal. Mas ele quer tomar conta do castelo todo.
Só quando eu abdico do meu ser e me entrego na totalidade a Jesus é que posso, finalmente ser eu próprio.
Confuso? Bom, ninguém disse que a realidade é simples, e se virmos bem, ela é quase sempre paradoxal.
No nosso percurso de vida muitas são as dúvidas que nos assaltam. Não devemos ter medo de as enfrentar. OK, Deus existe porque Jesus existiu entre nós e provou definitivamente que era Deus ao ressuscitar dos mortos. Mas será que isso aconteceu MESMO? Serão fiáveis os relatos do novo testamento?
Hum... seja. Mas então porque não somos todos cristãos? E porque há tantas religiões? E se Deus é todo poderoso porque há tanto mal no mundo, e será que Jesus nasceu mesmo de uma mãe virgem?
E isto é só uma amostra. Depois vêm 20 séculos de igreja com episódios chocantes. Guerras. Divisões. Crimes, hipocrisia. Às vezes parece, Deus me perdoe, que todos os males do mundo são por causa da Igreja.
Sinceramente, porquê acreditar?
Hoje respondo a esta pergunta com um singelo "porque sim".
Então depois de tanto argumento, apenas isso? Precisamente. Porque no final de contas, estou no mesmo sítio onde comecei. Os factos estão perante mim, e o meu destino também. E eu escolho entrar. Perfeitamente livre, de coração, porque quero. Não porque fui encurralado na única opção lógica ou razoável (o cristianismo não tem muito de razoável), não porque os argumentos lógicos me convenceram, mas porque perante todas as opções de vida, eu escolho esta.
Curiosamente, descubro que, depois da minha escolha, começo a ver mais do que via até aí. "Há mais coisas na terra e no céu, Horácio, do que tu sonhas na tua filosofia" (Hamlet). Confirmei o que já me haviam dito, que é preciso ir para ver, e não ver para ir.

No dia seguinte quis Jesus ir à Galiléia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me.
E Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.
Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Encontrámos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.
Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.
(João 1:43-46)

Se me perguntar, "mas que devo fazer para encontrar Deus?" tenho algumas dificuldades em responder. Comigo, penso que tudo começou com o meu batismo, e um lar cristão. Mais tarde, por incentivo da minha mãe, entrei no coro da paróquia e fui "guardando no coração" tudo o que ouvia. Mais tarde, por convite de uma amiga, fiz um retiro dos Convívios Fraternos, que me marcou profundamente. Curiosamente, apesar de fazer este trajeto na Igreja Católica, sempre tive um interesse pelas confissões protestantes. E isso acabou por ficar para sempre como parte da minha identidade cristã, porque casei com uma evangélica! Hoje gosto de dizer que sou um "evanjólico" - um católico evangélico ou, se preferirem, um evangélico católico.

Mas que pode um jovem ou adulto hoje fazer para se aproximar de Deus? Vivemos numa sociedade que muitos chamam de pós-cristã, onde os valores cristãos que moldaram a nossa civilização ocidental, se estão a perder e a degradar. Onde encontrar Deus?
Assim de repente ocorrem-me duas ideias: falar. Perguntar. Falar com amigos, ler, procurar na Internet... quem sabe, ir a palestras, seminários... aceitar o convite de um amigo para ir a uma igreja...
Sobretudo escutar, estar atento, e refletir. E também ler a Bíblia. Os evangelhos e as cartas de Paulo são verdadeiros tesouros nas nossas mãos. Extraordinários repositórios de sabedoria e revelação. Seja divinamente inspirada ou não, a Biblia é simplesmente única e incomparável. Tem livros de uma beleza extrema, literatura da melhor (dizem os especialistas, não eu). E diz quem sabe que os evangelhos e cartas de Paulo são fiáveis e que não há no mundo antigo pessoa mais bem documentada do que Jesus Cristo. Nem Júlio César, nem Alexandre o Grande, nem Buda.

Eu disse que acredito porque sim. Mas se eu esmiuçar a minha crença descubro que há realmente razões que a fundamentam. Eis aqui algumas:
- Acredito porque para mim a existência do universo não faz sentido sem uma causa primeira. Tudo o que existe, a extrema precisão das variáveis físicas, a complexidade da química que deu origem à exuberante vida na Terra, tudo isso é simplesmente demais para mim. Quanto mais a ciência descobre os segredos do universo, mas me aproximo do Criador e mais louvor lhe presto!
- Acredito porque sinto um vazio de existência dentro de mim, que não se preenche com nada deste mundo. E paradoxalmente, é nos momentos de maior felicidade que sinto... então é só isto?. Não, esta vida não pode ser a história toda.
- Acredito porque a história da revelação de Deus, iniciada com Abraão, moldou a história de um povo. Deus entrou na história humana, primeiro à distância, e depois em pessoa. Eu acredito na veracidade dos evangelhos. Custa-me a conceber que os seguidores de Jesus tenham forjado a história da ressurreição, e que estivessem dispostos a morrer por Ele, sabendo que era tudo inventado.
- Acredito porque vivo num país e numa época que é fruto de séculos de lutas e conquistas do bem sobre o mal. Se temos justiça, educação, segurança, boa-fé, devemo-lo a todos os nossos antepassados que também acreditaram que Deus é bom, e que amaram o próximo como a si mesmos.
- Acredito porque acredito no diabo. É verdade, sem esta criatura maléfica não é possível entender o universo como ele é. Por algum motivo (espero que um dia descubramos) um ser rebelou-se conta Deus e deu cabo do Seu plano original. Nós entrámos na rebelião, e é por isso que tornámos a nossa vida miserável.
- Acredito porque só sou eu na presença de Deus. Sem Ele, sou um ser perdido numa bola que gira à volta de uma estrela média num canto de uma galáxia como tantas outras...

Aquilino Rodrigues

Dedico este artigo ao meu amigo Márcio Silva que me tem ajudado a ver melhor.

sábado, 17 de junho de 2017


Os Senhores do Estacionamento

veiculo bloqueado

Tenho muitas críticas ao modelo de gestão do estacionamento urbano através das empresas de estacionamento.
Trata-se de uma apropriação de um bem público (o espaço citadino) por uma entidade empresarial, logo, com objetivos lucrativos. Para ser viável, a empresa tem que receber mais do que gasta. Por isso, carrega nos bloqueamentos e reboques, que rendem uma choruda maquia diária, que garante os empregos e salários de toda uma hierarquia.
Trata-se de um negócio oportunista, que vive das distrações e imprevistos dos cidadãos, castigando-os penosamente. Se dependesse apenas dos prevaricadores intencionais, seria um negócio inviável.
Faz algum sentido cobrar 60 euros por um bloqueamento ou 140 euros por um reboque? Este dinheiro é retirado dos bolsos dos cidadãos, e da boca dos seus filhos. É dinheiro que sai da economia e vai alimentar uma estrutura burocrática, não-produtiva, ao melhor estilo de estados autocráticos e em economias fechadas.
Esta "caça ao ticket" subverte totalmente o princípio que originou a regulação do estacionamento. É minha perceção que existe mais tolerância para carros mal estacionados fora das bolsas do que estacionados nas bolsas sem ticket, ou com este fora de prazo. É esta logica que está errada, e que desvirtua todo o propósito de regular o estacionamento, que é o de proporcionar ligares para quem precisa, e facilitar a circulação.
A acionista da empresa de estacionamento é o município. E este é a sede do poder local, onde os cidadãos têm participação ativa. Em Portugal há pouca tradição de ativismo cívico, mas existem muitos mecanismos que a democracia oferece para essa participação: são os direitos ao atendimento, reclamação, participação em reuniões, e o direito à petição, entre outros.
Eu compreendo que o estacionamento urbano é um assunto complexo e difícil de gerir. Mas por isso mesmo não pode cair em soluções autoritárias e desumanas. O sistema TEM que ser tolerante a situações imprevistas do dia-a-dia, tais como:
  • falta de moedas; (note que os fiscais de estacionamento NÃO trocam dinheiro para o estacionamento).
  • tomada e largada de passageiros, que muitas vezes obriga a acompanhamento até ao destino, por se tratarem de pessoas idosas, crianças, ou pessoas com deficiência;
Um caso pessoal
Há dias estacionei na Av. da Liberdade, em Lisboa, e não tinha moedas. Acontece, e não aceito que tenha que ser castigado por causa disso. Deixei um papel no tablier dizendo "fui buscar moedas. 10 minutos". Tive que andar 200 m até encontrar uma caixa multibanco, e depois ainda tive que ir pedir o favor de me trocarem a nota em moedas. Quando cheguei ao carro, a fiscal já andava a rondá-lo, qual abutre esfomeado, preparando-se para aplicar a desejosa multa. Quando a abordei dizendo que tinha deixado um aviso, disse-me "os srs. têm que andar com moedas". Veja-se, passou a ser uma obrigação cívica andar com moedas e a nova lei é anunciada pelos fiscais de estacionamento. E que não podia saber há quanto tempo o aviso tinha sido posto. Pergunto: e o que é que a srª faria no meu lugar? Ficou sem resposta. Porque não há resposta. Ela soube que faria o mesmo que eu, porque não havia mais nada a fazer.

Eis algumas das questões que levanto e que devem ser debatidas:
1 - Qual o critério para bloquear um veículo? Está definido objetivamente, para ser cumprido por todos os agentes/funcionários, ou existe margem de decisão arbitrária?
2 - Qual o critério para rebocar um veículo? Está definido objetivamente, para ser cumprido por todos os agentes/funcionários, ou existe margem de decisão arbitrária?
3 - Como resolver de forma harmoniosa o problema da falta de moedas? (deixo já duas ideias: os fiscais terem moedas para trocar e criar-se um dístico rotativo com horas e minutos para colocar no tablier enquanto se vai buscar moedas. Assim o fiscal saberá a que horas o carro chegou e dar uma tolerância pré-definida (10 minutos, por exemplo).
4 - Prevalece o princípio de que é mais grave estacionar fora das bolsas (nas passadeiras, passeios, curvas, cargas e descargas, etc) do que estacionar nas bolsas mesmo sem pagar? Se não, alguma coisa está errada nesta lógica.
5 - Valor das coimas. As coimas e taxas são muito elevadas, e devem ser reduzidas.

E deixo algumas ideias para tornar o sistema mais amigo do cidadão, e mais funcional.

1 - Reboque: que só sejam rebocados carros que estejam FORA das bolsas, onde realmente perturbam o trânsito e a segurança, e quanto aos que estão DENTRO das bolsas, que só sejam rebocados no dia útil seguinte).
2 - Que seja criado um dístico a usar pelos condutores, em que possam marcar a hora de chegada. (ver figura). Assim é possível saber a hora de chegada, e dar uma tolerância pré-estabelecida (por ex. 10 minutos).
3 - Oferecer a primeira hora de estacionamento a portadores do cartão de estacionamento de pessoa com deficiência.
4 - Rever em baixa o valor das taxas e coimas.
5 - Troca de notas por moedas pelos fiscais.
6 - Mais opções de pagamento. Por exemplo: Criação de uma conta-corrente na empresa, e pagamento através de QR-code mostrado no parquímetro, ou envio por Internet da hora de chegada e saída. E ainda, pagamento por MB-way.



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Transformação do Amor

"O prolongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha. Talvez o cônjuge já não esteja apaixonado com um desejo sexual intenso que o atraia para outra pessoa, mas sente o prazer de lhe pertencer e que esta pessoa lhe pertença, de saber que não está só, de ter um «cúmplice» que conhece tudo da sua vida e da sua história e tudo partilha. É o companheiro no caminho da vida, com quem se podem enfrentar as dificuldades e gozar das coisas lindas. Também isto gera uma satisfação, que acompanha a decisão própria do amor conjugal. Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira, mas podemos ter um projeto comum estável, comprometermo-nos a amarmo-nos e a vivermos unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade. O amor, que nos prometemos, supera toda a emoção, sentimento ou estado de ânimo, embora possa incluí-los. É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda a existência. Assim, no meio de um conflito não resolvido e ainda que muitos sentimentos confusos girem pelo coração, mantém-se viva, dia-a-dia, a decisão de amar, de se pertencer, de partilhar a vida inteira e continuar a amar-se e perdoar-se. Cada um dos dois realiza um caminho de crescimento e mudança pessoal. No curso de tal caminho, o amor celebra cada passo, cada etapa nova."

Papa Francisco - Exortação Apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), nº 163.

Dedico esta belíssima mensagem do Papa Francisco a todos os meus amigos e amigas cuja(o) companheira(o) já partiu desta vida.  Que Deus console os seus corações com as doces memórias dos anos passados juntos, e com a esperança da vida plena que nos espera do outro lado.  

sábado, 23 de maio de 2015

Nós não temos "direito à felicidade"

por C. S. Lewis (1963)

"Afinal de contas", disse Clara, "eles tinham direito à felicidade".
   Estávamos a discutir algo que acontecera no nosso bairro. O Sr. A. tinha deixado a Srª A. e pedira o divórcio para poder casar com a Srª B., que tinha igualmente pedido o divórcio para casar com o Sr. A. e não havia qualquer dúvida de que o Sr. A. e a Srª B. estavam muito apaixonados um pelo outro. Se eles continuassem a estar enamorados, e se nada de mal se passasse com a sua saúde ou rendimentos, podiam muito razoavelmente esperar ser muito felizes.
   Também era evidente que eles não eram felizes com os seus antigos parceiros. A Srª B. tinha adorado o seu marido desde o primeiro dia. Mas depois ele ficara amassado na guerra. Pensava-se que perdera a sua virilidade, e sabia-se que havia perdido o emprego. A vida com ele já não era aquela que a Srª B. ambicionara. Pobre Srª A. também. Perdera a sua beleza - e toda a vivacidade. Podia ser verdade, como alguns diziam, que ela se tivesse consumido a criar os seus filhos e a cuidar do marido durante a longa doença que ensombrara os seus primeiros anos juntos.
   Não se imagine, contudo, que o Sr. A fosse o tipo de homem capaz de descartar uma esposa despreocupadamente, como a casca de uma laranja depois de sugada.O suicídio dela fora um choque terrível para ele. Todos sabíamos isso, porque ele próprio nos dissera. "Mas que podia eu fazer?", dissera ele. "Um homem tem direito à felicidade. Eu tinha que aproveitar a minha oportunidade quando ela surgiu".
   E eu fui-me embora a pensar no conceito de "direito à felicidade".
   A princípio, isto parece-me tão estranho como o direito à boa sorte.Porque acredito - para lá do que certa escola de moralistas possa dizer - que dependemos, em grande parte da nossa felicidade ou miséria, de circunstâncias fora do controlo humano. Um direito à felicidade não faz, para mim, mais sentido do que o direito a ter 2 metros de altura, ou ter um pai milionário, ou ter sempre bom tempo quando se quer fazer um picnic.
   Eu entendo um direito como a liberdade que me é concedida pelas leis da sociedade onde vivo. Assim, eu tenho o direito de viajar pelas estradas públicas porque a sociedade dá-me essa liberdade; é por isso que chamamos às estradas "públicas". Também consigo entender um direito como uma reivindicação garantida pelas leis relativamente a uma obrigação por parte de outrem. Se eu tenho o direito a receber 100 libras de si, isto é outra forma de dizer que você tem o dever de me pagar 100 libras. Se as leis permitem ao Sr. A. deixar a sua mulher e seduzir a mulher do seu vizinho, então, por definição, o Sr. A. tem o direito legal de o fazer, e não precisamos trazer para o assunto nenhuma discussão sobre "felicidade".
   Mas, obviamente, não era a isso que Clara se referia. Ela queria dizer que ele tinha não só um direito legal, mas um direito moral para agir como agiu. Por outras palavras, Clara é - ou seria, se estivesse consciente disso - uma moralista clássica na linha de Tomás de Aquino, Grócio, Hooker e Locke. Ela acredita que por trás das leis do estado existe uma lei natural.
   Eu concordo com ela. Considero que este conceito é básico em toda a civilização. Sem ele, as leis do estado tornam-se absolutas, como em Hegel. Não podem ser criticadas porque não existe norma contra a qual possam ser julgadas.
   A ascendência da máxima de Clara, "Eles têm direito à felicidade", é augusta. Em palavras que são queridas a todos os homens civilizados, mas especialmente aos americanos, foi estabelecido que um dos direitos do homem é o direito à "busca da felicidade". E agora chegamos ao verdadeiro ponto.
   O que é que os escritores dessa augusta declaração queriam dizer? É quase certo o que eles não queriam dizer. Eles não queriam dizer que o homem tem o direito a buscar a felicidade por todo e qualquer meio - incluindo, digamos, assassinato, violação, roubo, traição e fraude. Nenhuma sociedade poderia ser construída sobre tal base.
   Eles queriam dizer "buscar a felicidade por todos os meios legais"; ou seja, por todos os meios que a lei natural aprova eternamente e que as leis da nação sancionam.
   Reconhecidamente, isto parece a princípio reduzir a sua máxima à tautologia de que os homens (em busca da felicidade) têm o direito a fazer tudo aquilo que têm o direito de fazer. Mas as tautologias, revistas no seu contexto histórico adequado, nem sempre são tautologias estéreis. A declaração é principalmente uma negação dos princípios políticos que por muito tempo governaram a Europa: um desafio lançado aos impérios austríaco e russo, à Inglaterra antes das Cartas Reformistas, à França de Bourbon. Exige que os meios de procura da felicidade para alguns, o sejam para todos; que os "homens", não homens de uma particular casta, classe, estatuto ou religião, sejam livres para os usar. Num século em que isto fica por dizer por nação após nação, e partido após partido, não lhe chamemos uma estéril tautologia.
   Mas a questão sobre quais meios são "legais" - que métodos de procurar a felicidade são ou moralmente admissíveis pela lei natural ou que devam ser considerados legalmente admissíveis pela legislação de uma particular nação - permanence exatamente igual. E nessa questão eu discordo de Clara. Eu não creio que seja óbvio que as pessoas tenham o "direito à felicidade" ilimitado que ela sugere.
   Para começar, eu penso que Clara, quando diz "felicidade", quer dizer simplesmente "felicidade sexual". Em parte porque mulheres como Clara nunca usam a palavra "felicidade" noutro sentido. Mas também porque eu nunca ouvi Clara falar do "direito" de mais coisa nenhuma. Ela era tipicamente esquerdista nas suas ideias políticas, e ficaria escandalizada se alguém defendesse a ação de um implacável magnata devorador de homens, pela razão de que fazer dinheiro constitui a sua felicidade, e ele estava a buscar a sua felicidade. Ela era também uma abstémia radical; nunca a ouvi desculpar um alcoólico por este estar feliz quando está bêbedo.
   Muitos dos amigos de Clara, especialmente as amigas, sentiam frequentemente - ouvi-os dizer - que a felicidade deles aumentaria percetivelmente se Clara encaixotasse os ouvidos. Duvido muito que isto invocasse a sua teoria do direito à felicidade.
   Clara, de facto, está a fazer o que todo o mundo ocidental parece ter andado a fazer nos últimos 40-e-muitos anos. Quando eu era um jovem, todas as pessoas progressistas diziam "Porquê todo este pudor? Tratemos o sexo como tratamos todos os outros impulsos." E eu era suficientemente ingénuo para acreditar que eles queriam significar o que diziam. Mas descobri desde então que eles queriam dizer exatamente o contrário. Eles significavam que o sexo devia ser tratado como nenhum outro impulso na nossa natureza foi alguma vez tratado por pessoas civilizadas. Todos os outros, assim o admitimos, têm que ser freados. Obediência absoluta ao instinto de auto-preservação, é o que chamamos de cobardia; ao impulso consumista, avareza. Até o sono tem que ser restringido se formos uma sentinela. Mas toda a indelicadeza e quebra de fé parece ser desculpada desde que o assunto em questão sejam "quatro pernas despidas numa cama".
   É como ter uma moralidade em que roubar fruta é considerado errado - a menos que se roubem nectarinas.
   E se protestarmos contra esta visão somos geralmente confrontados com tagarelice acerca da legitimidade e beleza e santidade do "sexo" e acusados de alojar algum preconceito puritano contra ele como sendo algo desonroso ou vergonhoso. Eu nego a acusação. Vénus nascida da espuma... Afrodite dourada... Nossa Senhora de Chipre... Eu nunca ventilei uma palavra contra vós. Se eu objeto a rapazes que roubam as minhas nectarinas, sou suposto de desaprovar as nectarinas em geral? Ou mesmo de rapazes em geral? sabe, pode acontecer que seja roubar aquilo que eu desaprovo.
   A situação real é habilmente escondida dizendo que a questão do "direito" do senhor A. abandonar a sua mulher é um direito de "moral sexual". Roubar um pomar não é uma ofensa contra uma qualquer moralidade especial chamada "moralidade da fruta". É uma ofensa contra a honestidade. O ato do Sr. A. é uma ofensa contra a boa fé (a promessas solenes), contra a gratidão (a quem ele estava profundamente devedor) e contra a simples humanidade.
   Os nossos impulsos sexuais esão, assim, a ser colocados numa posição de um absurdo privilégio. A motivação sexual serve para desculpar todo o tipo de comportamento que, se tivesse outro fim em vista, seria condenado como impiedoso, traiçoeiro e injusto.
   Embora eu não veja razão para atribuir ao sexo este privilégio, penso que vejo uma forte causa. E é esta.
   Faz parte da natureza de uma paixão erótica forte - por oposição a um apetite transitório - fazer promessas mais altaneiras do que qualquer outra emoção. Sem dúvida que todos os nossos desejos fazem promessas, mas não tão impressionantemente. Estar apaixonado implica a a convicção quase irresistível de que se vai continuar apaixonado até morrer, e que a posse do ser amado irá conduzir, não só êxtases contínuos, mas felicidade estável, fecunda, enraizada, e permanente. Portanto, tudo parece estar em jogo. Se perdermos esta oportunidade, teremos vivido em vão. Perante a ideia de tal condenação caímos em profundos abismos de auto-piedade.
   Infelizmente, estas premissas revelam-se frequentemente falsas. Qualquer adulto experiente sabe que é assim no que concerne a todas as paixões eróticas (exceto aquela que ele próprio está a viver no momento). Nós desculpamos facilmente as promessas amorosas de fim-do-mundo dos nossos amigos. Sabemos que tais coisas umas vezes perduram, e outras vezes não. E quando perduram, não é porque o tenham prometido logo à partida. Quando duas pessoas alcançam uma felicidade duradoura, isso não se deve apenas a serem bons amantes mas porque são também - devo dizê-lo cruamente - boas pessoas; controladas, leais, justas, e mutuamente adaptáveis.
   Se estabelecermos um "direito à felicidade (sexual)" que suplante todas as regras habituais de comportamento, fazêmo-lo não por causa do que a nossa paixão mostra ser na prática, mas antes pelo que ela declara ser quando estamos agarrados a ela. Assim, enquanto o mau comportamento é real e causa miséria e degradação, a felicidade que era o objeto do comportamento, mostra-se cada vez mais ilusório. Todos (exceto o Sr. A. e a Srª B.) sabem que o Sr. A. pode, dentro de um ou dois anos, ter as mesmas razões para abandonar a sua nova esposa, como fez com a anterior. Irá sentir novamente que está tudo em jogo. Ver-se-á de novo como o grande amante e a sua grande pena por si próprio excluirá toda a pena pela mulher.
   Dois aspetos persistem.
   Um é este. Uma sociedade em que a infidelidade conjugal é tolerada tem quer ser, a longo prazo, uma sociedade desfavorável às mulheres. As mulheres, não obstante o que algumas músicas masculinas e sátiras possam dizer em contrário, são mais naturalmente monogâmicas que os homens: é uma necessidade biológica. Onde a promiscuidade prevalece, elas serão, consequentemente, mais vezes as vítimas do que as culpadas. Além disso, a felicidade doméstica é-lhes mais necessária do que aos homens. E a virtude pela qual elas mais facilmente prendem um homem, a sua beleza, diminui a cada ano quando atingem a maturidade, mas isto não acontece àquelas qualidades de personalidade - as mulheres não ligam dois cêntimos ao nosso aspeto - pelas quais retemos uma mulher. Assim, na luta cruel da promiscuidade, as mulheres estão em dupla desvantagem. Elas jogam uma aposta mais alta e estão mais em risco de perder. Não simpatizo com os moralistas que se indignam com a crescente crueza da provocação feminina. Estes sinais de competição desesperada enchem-me de pena.
   Em segundo lugar, embora o "direito à felicidade" seja principalmente reclamado para o impulso sexual, parece-me impossível que a matéria fique por aí. O princípio fatal, uma vez permitido nesse departamento, irá, mais cedo ou mais tarde, infiltrar-se por toda a nossa vida. Avançamos, pois, para uma sociedade onde não só cada homem, mas cada impulso em cada homem reclama carta branca. E então, embora o nosso desenvolvimento tecnológico nos permita sobreviver um pouco mais, a nossa civilização terá morrido no coração e será - nem ousamos dizer infelizmente - banida de todo.

sábado, 16 de maio de 2015

O Problema com "X" (3ª Parte)


por C. S. Lewis
continuação do artigo publicado a 31-5-2014 e 25-11-2012.
Link para a 1ª parte
Link para a 2ª parte

   Essa é uma forma em que a visão de Deus deve diferir da minha. Ele vê todos os caráteres: Eu vejo todos exceto o meu próprio. Mas a segunda diferença é esta. Ele ama as pessoas apesar das suas falhas. Ele continua a amar. Ele não desiste. Não diga "É tudo muito fácil para Ele; Ele não tem que viver com eles". Ele tem. Eles está dentro deles assim como fora deles. Eles está com eles muito mais intima, próxima e incessantemente do que alguma vez poderemos estar. Cada pensamento vil dentro das suas mentes (e da nossa), cada momento de rancor, inveja, arrogância, ganância e presunção vai direto contra o seu amor paciente e ardente, e entristece o Seu espírito mais do que entristece o nosso.
   Quanto mais conseguirmos imitar Deus a este respeito, mais progresso faremos. Temos que amar "X" mais; e temos que aprender a ver-nos a nós próprios como uma pessoa exatamente do mesmo tipo. Algumas pessoas dizem que é mórbido estar sempre a pensar nas próprias faltas. Isso estaria muito bem se cada um de nós conseguisse parar de pensar nas nossas sem a seguir começar a pensar nas dos outras pessoas. Porque infelizmente nós gostamos de pensar nas falhas das outras pessoas: e no próprio sentido da palavra "mórbido", esse é o prazer mais doentio do mundo.
   Nós não gostamos de restrições impostas sobre nós, mas eu sugiro uma forma de restrição que devemos impor a nós próprios. Abstenha-se de todo e qualquer pensamento acerca das falhas das outras pessoas, a menos que os seus deveres como professor ou progenitor tornem necessário pensar sobre neles.Sempre que os pensamentos vierem desnecessariamente à sua mente, porque não simplesmente correr com eles? E pensar ao invés nas próprias falhas? Porque aí, com a ajuda de Deus, pode-se fazer alguma coisa. De todas as pessoas estranhas na sua casa ou no trabalho, só há uma que você conseguirá melhorar muito. Esse é o fim prático por onde começar. E realmente, devíamos mesmo. O trabalho tem que ser enfrentado um dia: e todos os dias o pomos de lado e tornamos mais difícil iniciá.lo.
   Qual é, afinal, a alternativa? Vê-se claramente que nada, nem mesmo Deus com todo o seu poder, consegue fazer "X" mais feliz, enquanto "X" se mantiver invejoso, egocêntrico e rancoroso. Fique certo que existe alguma coisa dentro de si que, a menos que seja alterada, vai impedir que Deus o livre de um futuro miserável. Enquanto essa alguma coisa lá se mantiver, não poderá haver céu para si, tal como não pode haver aromas doces para um homem constipado, nem música para um homem surdo. Não é uma questão de Deus nos "enviar" para o inferno. Em cada um de nós existe alguma coisa a crescer que se tornará no próprio inferno a menos que seja cortada pela raiz. O assunto é sério: ponhamo-nos nas Suas mãos o quanto antes - hoje, agora.

C.S.Lewis - The Trouble with "X" (1948), in God in the Dock. London: HarperCollins, 1979.
tradução de Aquilino Rodrigues.