Muitas vezes me pergunto "porque acreditas tu em Deus? Não seria muito mais simples deixar de acreditar num Deus invisível, num Deus que parece injusto?"
De facto, acreditar em Deus, no Deus dos cristãos, não é uma posição confortável para lidar com as angústias da vida. Deus não é um anti-depressivo ou um ansiolítico, nem tão-pouco uma droga para fugirmos à "dura realidade da vida".
Nos últimos anos tenho lido muitos livros e ouvido inúmeras palestras. Conheço quase todos os argumentos a favor da existência de Deus e contra a sua existência. E constatei que para cada argumento há sempre um contra-argumento, e que se pode explorar ad nauseum qualquer tema sem chegarmos a uma conclusão definitiva. A argumentação é importante, porque somos seres dotados de razão, e é pela lógica e raciocínio que construímos o nosso saber e também as nossas crenças. Se eu acredito que hoje irá chover, não é apenas porque tenho um pressentimento mas porque vi o boletim meteorológico e sei que as previsões são baseadas em estudos científicos e modelos matemáticos. Também na teologia, a argumentação é baseada em lógica e dedução... é a ciência de Deus. Adoro uma boa discussão teológica, mas não espero dela uma mudança de crença imediata de nenhuma das partes. Noto, contudo, que na maior parte dos casos, os argumentos contra a existência de Deus são pouco consistentes, muitos deles baseados em lugares-comuns ou em ideias adquiridas mas nunca realmente questionadas. Vou dar um exemplo. O sr. F. dizia-me que para ele, Jesus Cristo foi um grande pensador, um mestre da moral, mas que não lhe viessem com essa história de milagres, e de ressureição. Isso já eram elaboradas construções dos seus seguidores.
Pois bem, o Sr. F, não sabe o que está a dizer, e certamente nunca leu os evangelhos, porque se o fizesse, rapidamente chegaria à conclusão de que Jesus era um lunático destinado ao manicómio. Pois que outra classificação se pode dar a um ser que se aproxima de mim e me diz "vai, os teus pecados estão perdoados". Ou "quem me vê a mim vê o Pai"... das duas uma: ou ele tem um grave problema mental ou então sou eu que tenho um grande, muito grande problema.
É que vejamos, se Jesus é quem Ele disse que é, Deus feito homem, tremendas consequências advêm para mim e para a humanidade:
- Deus existe mesmo. Ali está Ele, em carne e osso, entre os seus conterrâneos da Palestina, há cerca de 2 mil anos, afirmando claramente quem Ele era e ao que vinha.
- Toda a história do povo hebreu, desde Abraão, culmina da vinda de Jesus. A sua morte e ressurreição esclarecem o percurso cheio de dramas feito por este povo.
- Perante Jesus sou confrontado com a minha natureza humana. Jesus diz-me que sou um ser único, criado com amor por Deus e destinado a amá-lo, mas que carrego o peso do pecado. Preciso de acabar com o pecado na minha vida. Isso requer uma espécie de arrependimento. Um assumir de culpas, que não é a nossa especialidade.
É aqui que as coisas se começam a complicar. Quando estamos a falar de bons princípios (por exemplo, a famosa regra de ouro - faz aos outros como gostas que façam a ti) estamos todos de acordo. São os tais ensinamentos morais de Jesus que ninguém ousa negar. Mas quando toca a mim, esbarro na minha armadura a que muitos chamam amor próprio, ou orgulho. É uma tragédia do nosso tempo que sejamos levados a acreditar em nós próprios e a levar por diante os nossos mais profundos desígnios. Pois esse é um caminho desastroso. O que há dentro de mim é um novelo de pensamentos, de propensões e de vontades que não poucas vezes são altamente reprováveis. Se eu der principalmente ouvidos à minha "voz interior" estou a criar um inferno para mim e para os outros.
Para que a minha consciência possa ter alguma credibilidade, eu tenho, em primeiro lugar, que mudar o seu ocupante. Gostamos de pensar em Jesus como um mestre, um sábio que está ali num canto (um canto importante, por certo) da nossa mente a avisar-nos do que fazemos bem ou mal. Mas ele quer tomar conta do castelo todo.
Só quando eu abdico do meu ser e me entrego na totalidade a Jesus é que posso, finalmente ser eu próprio.
Confuso? Bom, ninguém disse que a realidade é simples, e se virmos bem, ela é quase sempre paradoxal.
No nosso percurso de vida muitas são as dúvidas que nos assaltam. Não devemos ter medo de as enfrentar. OK, Deus existe porque Jesus existiu entre nós e provou definitivamente que era Deus ao ressuscitar dos mortos. Mas será que isso aconteceu MESMO? Serão fiáveis os relatos do novo testamento?
Hum... seja. Mas então porque não somos todos cristãos? E porque há tantas religiões? E se Deus é todo poderoso porque há tanto mal no mundo, e será que Jesus nasceu mesmo de uma mãe virgem?
E isto é só uma amostra. Depois vêm 20 séculos de igreja com episódios chocantes. Guerras. Divisões. Crimes, hipocrisia. Às vezes parece, Deus me perdoe, que todos os males do mundo são por causa da Igreja.
Sinceramente, porquê acreditar?
Hoje respondo a esta pergunta com um singelo "porque sim".
Então depois de tanto argumento, apenas isso? Precisamente. Porque no final de contas, estou no mesmo sítio onde comecei. Os factos estão perante mim, e o meu destino também. E eu escolho entrar. Perfeitamente livre, de coração, porque quero. Não porque fui encurralado na única opção lógica ou razoável (o cristianismo não tem muito de razoável), não porque os argumentos lógicos me convenceram, mas porque perante todas as opções de vida, eu escolho esta.
Curiosamente, descubro que, depois da minha escolha, começo a ver mais do que via até aí. "Há mais coisas na terra e no céu, Horácio, do que tu sonhas na tua filosofia" (Hamlet). Confirmei o que já me haviam dito, que é preciso ir para ver, e não ver para ir.
No dia seguinte quis Jesus ir à Galiléia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me.
E Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.
Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Encontrámos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.
Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.
(João 1:43-46)
Se me perguntar, "mas que devo fazer para encontrar Deus?" tenho algumas dificuldades em responder. Comigo, penso que tudo começou com o meu batismo, e um lar cristão. Mais tarde, por incentivo da minha mãe, entrei no coro da paróquia e fui "guardando no coração" tudo o que ouvia. Mais tarde, por convite de uma amiga, fiz um retiro dos Convívios Fraternos, que me marcou profundamente. Curiosamente, apesar de fazer este trajeto na Igreja Católica, sempre tive um interesse pelas confissões protestantes. E isso acabou por ficar para sempre como parte da minha identidade cristã, porque casei com uma evangélica! Hoje gosto de dizer que sou um "evanjólico" - um católico evangélico ou, se preferirem, um evangélico católico.
Mas que pode um jovem ou adulto hoje fazer para se aproximar de Deus? Vivemos numa sociedade que muitos chamam de pós-cristã, onde os valores cristãos que moldaram a nossa civilização ocidental, se estão a perder e a degradar. Onde encontrar Deus?
Assim de repente ocorrem-me duas ideias: falar. Perguntar. Falar com amigos, ler, procurar na Internet... quem sabe, ir a palestras, seminários... aceitar o convite de um amigo para ir a uma igreja...
Sobretudo escutar, estar atento, e refletir. E também ler a Bíblia. Os evangelhos e as cartas de Paulo são verdadeiros tesouros nas nossas mãos. Extraordinários repositórios de sabedoria e revelação. Seja divinamente inspirada ou não, a Biblia é simplesmente única e incomparável. Tem livros de uma beleza extrema, literatura da melhor (dizem os especialistas, não eu). E diz quem sabe que os evangelhos e cartas de Paulo são fiáveis e que não há no mundo antigo pessoa mais bem documentada do que Jesus Cristo. Nem Júlio César, nem Alexandre o Grande, nem Buda.
Eu disse que acredito porque sim. Mas se eu esmiuçar a minha crença descubro que há realmente razões que a fundamentam. Eis aqui algumas:
- Acredito porque para mim a existência do universo não faz sentido sem uma causa primeira. Tudo o que existe, a extrema precisão das variáveis físicas, a complexidade da química que deu origem à exuberante vida na Terra, tudo isso é simplesmente demais para mim. Quanto mais a ciência descobre os segredos do universo, mas me aproximo do Criador e mais louvor lhe presto!
- Acredito porque sinto um vazio de existência dentro de mim, que não se preenche com nada deste mundo. E paradoxalmente, é nos momentos de maior felicidade que sinto... então é só isto?. Não, esta vida não pode ser a história toda.
- Acredito porque a história da revelação de Deus, iniciada com Abraão, moldou a história de um povo. Deus entrou na história humana, primeiro à distância, e depois em pessoa. Eu acredito na veracidade dos evangelhos. Custa-me a conceber que os seguidores de Jesus tenham forjado a história da ressurreição, e que estivessem dispostos a morrer por Ele, sabendo que era tudo inventado.
- Acredito porque vivo num país e numa época que é fruto de séculos de lutas e conquistas do bem sobre o mal. Se temos justiça, educação, segurança, boa-fé, devemo-lo a todos os nossos antepassados que também acreditaram que Deus é bom, e que amaram o próximo como a si mesmos.
- Acredito porque acredito no diabo. É verdade, sem esta criatura maléfica não é possível entender o universo como ele é. Por algum motivo (espero que um dia descubramos) um ser rebelou-se conta Deus e deu cabo do Seu plano original. Nós entrámos na rebelião, e é por isso que tornámos a nossa vida miserável.
- Acredito porque só sou eu na presença de Deus. Sem Ele, sou um ser perdido numa bola que gira à volta de uma estrela média num canto de uma galáxia como tantas outras...
Aquilino Rodrigues
Dedico este artigo ao meu amigo Márcio Silva que me tem ajudado a ver melhor.

... obrigado, querido amigo, mas o que fazemos é uma via de dois sentidos. Ganhamos os dois andando juntos. Afinal, “melhor é serem dois do que um, porque tem melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o companheiro”, Eclesiastes 4:9-10...
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