sábado, 31 de maio de 2014

O Problema com "X" (2ª Parte)

por C.S. Lewis
(continuação do artigo publicado neste Blogue em 25 de Novembro de 2012)


   É um grande avanço compreender que é assim; enfrentar o facto de que, mesmo se todas as condições externas corressem bem, a verdadeira felicidade continuaria a depender do caráter das pessoas com as quais tem que viver - e que não conseguirá modificar o seu caráter. E agora vem o ponto. Quando compreendeu isto, terá tido, pela primeira vez, um vislumbre de como deve ser para Deus. Porque certamente isto é (de certa forma) precisamente o que Deus tem que enfrentar. Ele providenciou um mundo rico e belo para as pessoas nele viverem. Ele deu-lhes inteligência para lhes mostrar como usá-lo e consciência para lhes mostrar como ele deveria ser usado. Ele concedeu que as coisas que eles precisam para a sua vida biológica (comida, bebida, descanso, sono, exercício) fossem positivamente deliciosas para eles. E, tendo feito tudo isto, Ele vê todos os seus planos falharem - tal como os nossos pequenos planos são estragados - pela desonestidade das próprias pessoas. Todas as coisas que Ele lhes deu para os fazer felizes são transformadas em ocasião para discussão e inveja, excessos e acumulação, e tolices.
   Pode dizer que para Deus é muito diferente porque Ele poderia, se o desejasse, alterar o caráter das pessoas, e nós não podemos. Mas esta diferença não é tão profunda como podemos pensar à partida. Deus impôs a Si próprio a impossibilidade de alterar o caráter das pessoas à força. Ele pode e irá alterá-los - mas só se as pessoas O deixarem. Neste aspeto Ele limitou verdadeiramente o Seu poder. Por vezes perguntamo-nos porque terá Ele feito isso, e chegamos a desejar que não o tivesse feito. Mas aparentemente Ele acha que vale a pena fazê-lo. Ele prefere ter um mundo de pessoas livres, com todos os seus riscos, do que um mundo de pessoas que agissem corretamente como máquinas porque não conseguiam agir de outra forma. Quanto melhor conseguirmos imaginar tal mundo de seres automáticos perfeitos, tanto melhor, penso eu, veremos a Sua sabedoria.
   Eu disse que quando nós vemos como os nossos planos afundam devido ao caráter das pessoas com quem temos que lidar, estamos, "de certa forma", a ver como deve ser para Deus. Mas apenas de uma certa maneira. Há dois aspetos em que a visão de Deus deve ser muito diferente da nossa. Em primeiro lugar, Ele vê (como o leitor) como todas as pessoas em sua casa ou no seu trabalho são, em diferentes graus, incómodas ou difíceis; mas quando Ele olha para essa casa ou fábrica ou escritório, Ele vê mais uma pessoa do mesmo tipo - aquela que o leitor nunca vê. Refiro-me, naturalmente, a si próprio. Esse é o próximo grande passo na sabedoria - compreender que o leitor também é aquele tipo de pessoa. O leitor também tem uma falha fatal no seu caráter. Todas as esperanças e planos de outros acabaram por se perder vezes sem conta no seu caráter, tal como as suas esperanças e planos se perderam no deles.
   Não é conveniente passar por cima disto com um reconhecimento vago "claro, eu sei que tenho as minhas falhas". É importante perceber que existe mesmo uma falha fatal em si: algo que dá aos outros exatamente o mesmo grau de desespero que as falhas deles dão a si. E é quase certamente algo que o leitor não sabe - como por exemplo, o que os anúncios chamam de "mau hálito", que todas as pessoas notam exceto o próprio. Mas porque, pergunta o leitor, não me dizem nada? Acredite, eles tentaram vezes sem conta mas o leitor não aceitou. Talvez uma boa parte do que considera ser a sua "rezinguice", o seu "mau feitio" ou "estranheza" sejam apenas as suas tentativas para o fazer ver a verdade. E mesmo as falhas que o leitor conhece em si, não as conhece totalmente. Dirá "Eu admito que perdi as estribeiras ontem à noite"; mas os outros sabem que está sempre a fazer isso, que é uma pessoa com mau feitio.  Dirá "admito que bebi um pouco demais no Sábado passado"; mas os outros sabem que bebe sempre demais.
  (continua)

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